Desgostos do afeto

Quinta passada, recebi um e-mail, reencaminhado por uma amiga, cujo título evidenciava em letras maiúsculas e, portanto, chamativas a novidade: “ESTREIA – A cidade é uma só?”, era o assunto da mensagem. O corpo do texto esclarecia que a pergunta, na verdade, é nome de filme. O longa-metragem, dirigido por Adirley Queirós, “é uma reflexaõ sobre os 50 anos da capital do país e retrata a exclusão territorial e social enfrentada por parte da população do Distrito Federal e entorno”, conta a sinopse.

A catarse foi imediata. O mais rápido que pude, corri para uma sala de cinema a fim de prestigiar o trabalho. Afinal de contas, o motivador do projeto tem grande semelhança com o que me levou a criar o sem esquinas. Ao menos, foi o que constatei pela citação final do e-mail – de procedência ainda, por mim, desconhecida: “Daí eu pensei em como fazer um filme bem agradável, legal e gângster: Brasília, I Love You”, são as aspas de encerramento do correio eletrônico.

Este blog, caro leitor, foi igualmente inspirado na série de filmes Cities of love (Cidades do amor, em tradução livre). Você deve ter assistido ou ouvido falar em Paris, eu te amo e Nova York, te amo. A franquia cinematográfica reúne curtas-metragens com histórias que têm como pano de fundo grandes metrópoles mundiais. As tramas relatam o cotidiano ou os dilemas de personagens que vivem a rotina das cidades.

Mas por que Brasília não está entre elas? Questão que me ocorreu, em determinada altura. A partir dela, concebi o sem esquinas, para contar Brasília a quem não a conhece ou a quem deseja conhecê-la de um jeito diferente, por meio de jornalismo, literatura e histórias de gente de carne e osso.

É que amo Brasília. Nem sei bem como o sentimento surgiu. Desconfio que da convivência, como, não raro, acontece. É daqueles amores que nascem na marra, sabe? Engraçado, tem algo curioso nisso de amar. Não é coisa que se faça com devoção todo o tempo. Há dias em que detesto a cidade. Detesto a terra vermelha impregnada em ministérios, no Museu da República e no Teatro Nacional ou em blocos, tênis e pés. Fico irritada com o centro da capital vazio numa noite de sábado. Nas grandes metrópoles, se não me engano, vidas seguem acontecendo madrugada afora. Aqui não.

Além disso, me causa desconforto constatar, diariamente, que não, a cidade não é uma só. Ela é fragmentada em espécies de cidades menores ou bairros ou qualquer classificação não planejada por Lucio Costa, que divide moradores entre palácios e periferias, sempre a depender do volume de notas verdes que o indivíduo traz no bolso e, em outros termos, da quantidade de oportunidades que a nação, as origens, a história, o passado ou sei lá o que garantiu ao vivente.

Poderia, por horas, listar diversos desgostos de se morar em Brasília. Arrisco afirmar que apontaria mais defeitos do que qualidades na capital da esperança. O que não significa, é claro, que não se trate de amor. Pois, bem se sabe, falar de amor é tarefa difícil. Sentir, pior ainda. Exige contato direto, na prática mesmo. Nunca achei simples a rotina. Ela desgasta e banaliza, de pouco em pouco, o que há de melhor em qualquer relação.

Por sorte – não sei se é só comigo nem se é só neste pedaço de cerrado –, há coisas que jamais caem na rotina. A gente daqui põe-se, invariavelmente, feliz quando as cigarras vêm anunciar a chuva, ao encontrar a terceira ponte iluminada em um anoitecer qualquer no meio da semana e com as luzes de Natal a enfeitar a Esplanada todo fim de ano.

Brasília é cheia de singularidades apaixonantes. Há uma capital invisível por trás do estigma de centro político, uma metrópole inteiramente habitada por pessoas de verdade, que se encontram e se desencontram nas esquinas que a gente não vê. No fim, amor é isso. Amor seco, amor chuvoso, amor à Brasília. Amor é quando você se apaixona, mas também cansa, enjoa e reclama do lugar. Amor é afeto que resiste às dificuldades de cada estação.

Foto: Beatriz Vilela

Foto: Beatriz Vilela

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