Será que é amor?

Cruzaram-se as duas, balançando as cabeças em cumprimentos leves, sutis. Como se não fossem, há muito e faz pouco, parte importante da existência uma da outra. Amizades transcorrem em percursos feitos de tesourinhas. Às vezes, a gente vai na direção certa. Mas não é sempre que virar aqui, girar meia volta e retornar ali desemboca na saída esperada. O risco de errar o cálculo e cada um seguir por vias que nada tem a ver com o caminho do outro é constante.

Helena sentia o frio na barriga de quando se desce uma tesourinha em alta velocidade ao esbarrar no corredor com a amiga. Dava medo. Dia desses, escutara na rádio a música do Legião Urbana¹ que elas decoraram com empenho nos tempos de escola e rabiscavam nas carteiras em meio a aulas e intervalos entediantes. Eram quatro anos de companheirismo matinal, cinco de aventuras universitárias e mais uns meses e alguns quebrados desbravando, juntas, maquetes não planejadas de capitais do mundo.

Mas foi no vermelho chão brasiliense, há uma quantidade de anos que enchem as duas mãos, que o amor delas se enraizou. Eram raízes tão profundas quanto as de árvores do cerrado. Vocês sabem, as gentes daqui sempre dão um jeito de enfrentar a seca. As duas garotas iniciaram-se em diálogos animados de quem desde o primeiro momento descobre o prazer da afinidade.

Trocaram gostos, cartas, canções, lágrimas e um monte de histórias. Depois fizeram as próprias histórias, em dupla. Tinham uma caixa de passado, uma pilha de cadernos e alguns álbuns fotográficos encarregados de registrar a intimidade compartilhada. Uma jamais teria descoberto o encanto do céu do planalto ao entardecer não fosse a persistência da outra em conduzi-la, com paciência, às belezas e minúcias de ser de Brasília.

E agora isso. Esbarram-se pelas retas cheias de curvas, patrimônio tombado de todas as vidas sobrevividas na capital, mas fingem que não se conhecem nos mais íntimos devaneios. Era como reproduzir nesses blocos irremediavelmente iguais, por madrugadas insones, a composição de Renato Russo. Ficavam acordadas, imaginando alguma solução. Será que o egoísmo ia mesmo destruir seus corações? Helena não queria responder pelos erros a mais. Nem queria brigar, era sem querer.

Vale a pena levar os dias vestindo casca mais dura e grossa que os retorcidos arbustos da vegetação local? Talvez. A gente tem mesmo que se precaver de adversidades climáticas. Mas, sei lá, e em caso de queimada, quem é que vai nos proteger? O fato é que ninguém escapa de eventuais dores e decepções aqui ou acolá. Quando isso acontece, o máximo que se pode fazer é aguardar a próxima estação. Uma hora os ipês florescem e tudo se ajeita. Só que neste meio tempo, a vida corre. E é infinitamente melhor ver a vida correr acompanhado. Em especial, de bons amigos. Você pode até duvidar, acho que isso, essa tal de amizade, não é amor. É bem mais.

Foto: Thiago Lima

Foto: Thiago Lima


¹ Refere-se à obra Será, marcante canção de amor na história da música nacional, de autoria de Renato Russo.

Anúncios