Peregrinos do cerrado

É engraçado como respostas – de qualquer gênero ou modelo – estão, com frequência, bem diante dos olhos de quem pergunta. Mas o curioso anda sempre tão ocupado formulando dúvidas que se esquece de atentar-se às soluções. Esses tempos, andei me questionando por que é que gosto tanto de Brasília. Sinceramente? Assim, de primeira, não faço a menor ideia.

Talvez não saiba explicar nem de segunda ou de terceira. Vai ver a complexidade de sentimentos não cabe nas poucas palavras de uma resposta. Porém, de uma coisa eu sei: há respostas para tudo na vida e, se não há, inventa-se. Às vezes, elas escondem-se atrás do óbvio. Outras, como me ocorreu mais cedo, nem se dão ao trabalho de ocultar-se e saem por aí, alimentando dúvidas com certezas. Portanto, minha questão não haveria de ficar solta indefinidamente. Uma hora a resposta aparece.

Foi o que aconteceu hoje. Remexendo em papéis e bagunças cuidadosamente organizados sobre a escrivaninha, encontrei dois itens de grande valor afeitvo: uma carta e um livro. A obra é a Só em caso de amor, de autoria da cronista do Correio Braziliense Conceição Freitas, engajada amante da capital. Trata-se de uma coletânea de crônicas sobre a cidade.

Tenho o exemplar faz anos e, bem me lembro, foi um presente que dediquei a mim mesma após ler a contracapa. Nela, a jornalista afirma: “gosto assim de Brasília porque ela me acolheu sem nem perguntar quem eu era”. Eis que encontro, de surpresa, uma boa resposta para minha questão. Contudo, não a única.

Já a carta – que descobri escondida por entre as páginas do livro – é uma desconcertada folha de caderno na qual rabisquei pensamentos a um amigo em meados de 2010. Este amigo, morador do Rio de Janeiro – habiatudo ao mar na terra (e não no céu, como no planalto central) –, me perguntou, meio admirado, meio contrariado, por que eu gosto de Brasília. Tento resolver o dilema na carta. Ao que parece, em vão. A verdade é que ainda não formulei argumento concreto e conciso para esclarecer meu amor à capital.

Todavia, possuo uma explicação que me soa plausível. Cidades são feitas de pessoas. Logo, se gosto tanto daqui, devo isso aos brasilienses e agregados. Sim, pasmem. Os candangos têm fama de antipáticos e arrogantes. Deve ser sorte, mas comigo é diferente. Foi gente de Brasília que me apresentou, de boa vontade, blocos, linhas e retas. Eles me ensinaram a enxergar encanto em galhos contorcidos e diferenças em padrões ou no que parece, à primeira vista, igual.

Além do mais, a mistura de regiões e sotaques faz Brasília sair do plano piloto. Mais de dois milhões de pessoas dos mais diversos lugares, carregando inúmeras histórias, constroem, dia a dia, a capital do país e é isso que me encanta nela. Gosto assim de Brasília e de suas pessoas, em especial, por admiração. Admiro essa gente que, durante seis meses do ano, peregrina no (quase) deserto à procura de tempos melhores e, nos outros seis, mergulha de cabeça na chuva, esperando a melhora do tempo. Razão tem a cronista: Brasília? Só em caso de amor…

Foto: Beatriz Vilela

Foto: Beatriz Vilela

Anúncios