Não dá para imaginar

Bruna contrai os lábios de leve um contra o outro, para certificar-se de que o batom vermelho-cereja não transborda nem meio milímetro o contorno da boca. Depois se vira de lado a fim de conferir se o vestido branco florido lhe cai bem. Dá duas ou três voltas em frente ao espelho e conclui que sim. Está pronta para a festa. É o 46º aniversário de Brasília. A jovem de 16 anos prepara-se para comemorar em um grande evento popular na Esplanada dos Ministérios, cuja atração principal é o show da banda Capital Inicial, brasiliense nata. Bruna conseguiu meia dúzia de cortesias e vai assistir a apresentação de camarote, com a mãe e a irmã mais nova.

Na fila, um rapaz alto, um pouco rechonchudo e com trejeitos amigáveis aproxima-se. Quer saber se as moças têm cortesias sobrando, uma para ele e outra para o primo, que observa a cena de longe, constrangido com a atitude do companheiro de pedir favor a desconhecidas. Dona Cíntia, mãe das duas adolescentes, se compadece. Eles parecem tão simpáticos. Vai que, com sorte, engatam namoro com uma das meninas, confabula a senhora. Seu maior sonho é ver as filhas de namorado, crescidas, preparadas para compor família, cuidar da casa e todo o conjunto de planos e projetos de vida que idealizavam as mentes femininas há um século ou mais. Não em dois mil e tantos. Adequada ao compasso da contemporaneidade, Bruna quer, apenas, garantir independência.

Mas não tem jeito, palpite de mãe sobre o futuro é, salvo raras exceções, certeiro. Bruna não demora a pensar no assunto. Admite que o tal primo até que é bonito. Mas, no decorrer da noite, descobre tantas afinidades com Samuel, o rechonchudinho simpático, que é com ele que acaba por trocar números de telefone e, na sequência de acontecimentos, inúmeros beijos. O que dona Cintia não poderia imaginar, porém, é que, a partir da semana seguinte, Samuca seria presença frequente no sofá de casa. Apareceria, primeiro, carregando livros do Harry Potter. Com o pretexto, duvidoso, de que tinha prometido emprestar a série para Bruna. Depois, bateria à porta para entregar um volume que esqueceu – propositalmente – de levar na visita anterior.

Àquelas alturas, ninguém imaginava também que em um shopping de Taguatinga, numa tarde comum de outono brasiliense, Bruna perguntaria a Samuel, sem malícia, só para tirar uma dúvida: “a gente está namorando?”. Eles namorariam pelos próximos quatro aniversários da cidade. Samuca se habituaria a fazer o caminho de Samambaia até a rua sem saída onde Bruna mora até hoje, perto da Praça do Relógio¹. No primeiro aniversário de namoro, ele recortaria corações de cartolina vermelha para enfeitar o quarto dela.

Não era de se imaginar que Bruna se deslocaria de Taguatinga até o Plano Piloto para buscar Samuca num domingo, após o rapaz tomar um porre. Nem que ele, que sempre teve pavor a azeitonas, comeria o fruto sem reclamar, só por ser ingrediente gastronômico essencial nos pratos da namorada. Muito menos que, em um acampamento com amigos, ele a deixaria sozinha e doente na barraca, em troca de farra e bebidas. Ou que ela, um dia, teria coragem de beijar o melhor amigo dele. Muito menos que no mesmo shopping de outrora, numa tarde monótona de primavera, Bruna e Samuca terminariam o namoro. Ambos perplexos, sem acreditar que aquilo era possível após tantos planos.

Não dava para imaginar nada disso naquela noite de festa por entre ministérios. Por melhor planejada que seja a cidade, ela sempre esconde imprevistos em uma ou outra esquina. A maior parte do tempo, estamos por demais ocupados em viver. Ninguém repara nos encontros que por um detalhe não se desencontraram. As ruas guardam versões diversas de uma mesma história: a que aconteceu e todas as que poderiam ter sido, mas não foram. Bruna, no fim das contas – somando alegrias e subtraindo desgostos –, às vezes, ainda sorri antes de dormir ao lembrar-se de Samuca. É bom saber que eles aconteceram.

Quando se trata de amor, caro Shakespeare, não ser é pura besteira. A resposta à questão é ser, simplesmente. Nem que seja só por curiosidade, só para ver no que vai dar. Não se deixa o amor passar assim, sem motivo. Mas isso é coisa que pouca gente imagina.

Foto: Thiago Lima

Foto: Thiago Lima


¹ Praça localizada no centro de Taguatinga, importante ponto turístico da região administrativa.

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