Camelos na via

O relevo do planalto central é um convite aos ciclistas para pedalar nas ruas de Brasília. O número de carros nas vias da cidade vem crescendo e, para fugir do estresse de engarrafamentos ou das dificuldades com o transporte público, cada vez mais brasilienses recorrem à bicicleta para deslocar-se de casa para o trabalho. Mas será que a capital tem estrutura para suportar formas alternativas de locomação que envolvam menos de quatro rodas?

Na segunda-feira passada (17/6), o atropelamento da ciclista Carolina Scartezini – 23 anos –, estudante de Ciências Sociais da Universidade de Brasília (UnB), colocou a questão em pauta. A jovem deslocava-se de bicicleta da Asa Norte, onde morava, para as manifestações na Esplanada dos Ministérios. Na altura do Setor Hoteleiro Norte, no Eixo Monumental – principal avenida do Plano Piloto –, colidiu com um veículo. Carolina sofreu traumatismo craniano e hemorragia interna, foi levada ao hospital, mas não resistiu aos ferimentos.

O incidente levou mais de 200 pessoas, entre familiares e amigos da vítima e ativistas do grupo de ciclistas Bicicletada, a uma intervensão em homenagem à estudante no local da colisão. Carregando uma bicicleta branca, com o intuito de chamar a atenção da sociedade para as mortes de ciclistas no trânsito, o grupo reivindicou o direito de andar de bicicleta pela cidade, sem enfrentar riscos ou violência.

Mas não é de hoje que adeptos à causa se unem por um modo de vida mais social, para defender o direito do cidadão de usar as ruas. O Bicicletada, da forma que acontece hoje, surgiu em Brasília em 2007. Mas, desde 2001, já havia encontros do gênero na capital. Toda última sexta-feira do mês, ciclistas se encontram no Museu da República, zona central da cidade, para celebrar e retomar o espaço público. Os participantes enfeitam as bicicletas, munem-se de faixas, panfletos, buzinas e gritos de guerra e desbravam Brasília, percorrendo um trajeto que é definido em conjunto, na hora do evento.

Contudo, o Bicicletada não é só um passeio, conforme explica o biólogo Anderson Paz – 27 anos –, ciclista ativo e membro do grupo. “É um movimento político reivindicatório, com foco na mobilidade urbana”, explica. Segundo ele, o projeto é horizontal e não possui líderes. Qualquer um pode participar dos encontros, de bicicleta, patins, skate, patinete ou a pé. O objetivo é divulgar a bicicleta como meio de transporte e pedir espaço e respeito no trânsito para meios de transporte alternativos.

Frente ao Governo do Distrito Federal (GDF), os protestos de ciclistas parecem surtir efeitos.  A Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap), sob a coordenação da Secretaria de Obras do DF, pretende entregar aos moradores da cidade 600 quilômetros de ciclovias até o final de 2014. De acordo com informações do órgão, no governo de Agnelo Queiroz já foram investidos R$ 33 dos R$ 121 milhões previstos para a conclusão do projeto.

Algumas das obras propostas já estão concluídas, como as ciclovias no Sudoeste, Recanto das Emas, Santa Maria e Ceilândia. Outras ainda estão em andamento, é o caso dos trechos nas asas Sul e Norte, na Universidade de Brasília e na Esplanada. A construção de ciclovias, porém, não é suficiente para garantir a inserção segura dos ciclistas no trânsito, observa Anderson. “É preciso pensar não só na ciclovia, mas também em políticas cicloviárias”, alega.

De acordo com usuários, as obras apresentam problemas como descontinuidade no trajeto, falta de sinalização, conflitos com pedestres, falhas na iluminação e pontos de acesso e de travessia inseguros ou inexistentes.

O Distrito Federal possui diversas leis distritais que visam garantir a mobilidade urbana, como a lei orgânica do DF, que define que o poder público deve estimular o uso de veículos não poluentes e que viabilizem a economia energética, a partir de campanhas educativas e da construção de ciclovias em todo o território. Há também leis que determinam a instalação de bicicletários e a criação de sistema cicloviário no DF. Mas, na prática, as políticas de mobilidade em Brasília ainda deixam a desejar.

Morador de Sobradinho¹ – onde vive com a mãe – e do Plano Piloto – quando está na casa do pai –, Anderson supera as dificuldades de ser ciclista na capital e recorre à bicicleta para locomover-se a maior parte do tempo. Para ele, optar por um transporte de duas rodas garante bem-estar físico e pscilógico, além de aumentar a disposição e o animo para a realização de ativididas diárias. “Eu me sinto muito melhor e mais disposto para trabalhar e fazer tudo o que tenho de fazer”, relata.

Na primeira vez que andou de bicicleta – sem rodinhas –, o biólogo tinha apenas quatro anos de idade. Depois disso, Anderson não parou mais. Durante a infância em Sobradinho, antes mesmo de entender o que é ser ciclista, já usava a bike para deslocar-se para escola, curso de inglês, natação, futebol e encontros com amigos. Hoje, tem a bicicleta como companheira inseparável. Está tentando vender o carro há um tempo, pois aposentou o uso de automóveis em prol de uma vida mais saudável.

“Andando de bicicleta tenho uma relação mais direta com a cidade” – conta o jovem – “A liberdade é maior, posso mudar o percurso, explorar Brasília, ver as árvores e grafites”. Segundo ele, a região do Plano Pilto é propícia para quem anda de bicicleta porque é uma área plana e tem vias de velocidade reduzida e que oferecem condições de trânsito sem conflito entre motoristas e ciclistas.

Andar de camelo² é atividade que há muito faz parte da rotina de Brasília, conforme sugere Renato Russo na popular canção Eduardo e Mônica. A novidade agora é que o ciclismo ultrapassa o patamar de exercício físico e afirma-se como forma de diminuir o estresse e melhor a qualidade de vida em grandes metrópoles. Mas, na capital planejada, brasilienses ainda aguardam organização do governo para que o trânsito da cidade ande em paz e seguro.

Foto: Ana Júlia Melo

Foto: Ana Júlia Melo


¹ 5ª Região Administrativa do Distrito Federal, fundada em maio de 1960 e atualmente com cerca de 85 mil habitantes.

² O termo significa bicicleta, segundo gíria regional de Brasília. Popularizou-se por meio da música Eduardo e Mônica, na década de 1980.

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