Capital do interior

Em meu primeiro mês como moradora do planalto central – há quase dez anos –, lembro-me bem, eu só saia de casa para garantir presença em sala de aula, afora as horas despendidas em refeições diárias. Completei a sexta série do ensino fundamental em uma escola classe cujo número não me recordo, por maior esforço que faça. Tudo que sei é que era na Asa Sul, nas proximidades do Pátio Brasil¹. Prefiro não questionar os adultos à época sobre o assunto. Parece-me que, quando se trata de passado, é melhor guardar lembranças difusas, mas próprias, do que certezas alheias.

Conto nos dedos de uma só mão as memórias que tenho daquelas longas tardes de verão brasiliense. Elas costumam ficar escondidas em qualquer gaveta empoeirada de mim. Mas hoje, casualmente, uma conversa me fez resgatá-las das traças. Eis que alguém comenta sobre o quanto os paulistanos se surpreendem ao pisar os pés de cidade grande na bucólica terra vermelha do cerrado. “Que cidade verde!”, exclama o pessoal habituado a respirar poluição, admirados.

Pois eu, outrora, em um novembro perdido nos meus tempos de escola classe, também fui obrigada, de um susto, a trocar a metrópole (paulista) pela capital (do país). Soa como uma antítese, bem sei. Mas posso explicar. Por volta do meio-dia, de segunda a sexta, minha mãe segurava meu braço com firmeza e saia a arrastar meus 12 anos de vida por super-quadras e extensos gramados vazios, passando por um campo de futebol mal cuidado, que, mais tarde, seria cenário das aulas de educação física. Eu desconfiava, calada, do caráter interiorano das asas de Lucio Costa.

De boba eu não tinha nada. Nascida em cidade com menos gente que o condomínio onde morava, a Octogonal 4², minha experiência com localidades pacatas, de horas arrastadas e vizinhança conhecida, era – e ainda é – vasta. Brasília não me enganava. As ruas cheias de crianças trocando passes de bola, as árvores repletas de flores e as senhoras a espiar a vida alheia em janelas de blocos ou em portas de casas. Ah! Não dava para esconder. Quem se dispusesse a passear por quinze minutos pela W3 perceberia: a capital estava mais para vilarejo do que para cidade grande.

Mas eu não ousava afirmar, apenas supunha. Até o dia em que uma situação sanou qualquer dúvida. Brasília foi desmascarada! Aconteceu por volta das 15h de uma tarde quente. Um grupo de três ou quatro colegas fizeram as vezes de guias turísticos mirins e, durante o intervalo, me levaram para a rua, a fim de apresentar à forasteira a infância no Plano Piloto. Uma das brincadeiras consistia em subir em pés de manga e de jaca para colher as frutas mais maduras.

Eu nunca havia subido nem nunca subi em uma árvore. Sou cheia de medos e um deles é o de altura, que se soma à completa inabilidade para todo tipo de atividade física. Até escalar arbustos. Declarei meu pavor baixinho, para não que ninguém o julgasse. Vi o grupo voltar-se, perplexo, para mim. Soltaram uma ou outra expressão de espanto ou reprovação, simultaneamente, de modo que não pude entender nenhuma delas. Até que alguém, perpicaz, lembrou-se:

– Ah, mas ela é moça da capital. Lá nem árvore tem.

Por instantes, todos pareceram concordar. Mas, logo em seguida, um segundo observou:

– Ué, mas a gente que é da capital. A gente é da capital do Brasil!

Concordamos, pensativos, por breves instantes. Depois os colegas deram de ombros e saltaram, cada um em um pé de não sei o que, em busca de suculentas frutas do cerrado. Eu permaneci no chão, como uma legítima filha da cidade grande.

Hoje, Brasília tem cara e trânsito de metrópole. Não sei se crianças ainda sobem em árvores ou brincam no meio da rua. Não tenho tempo para isso, você há de compreender, é a correria do dia a dia. De qualquer forma, guardo as lembranças seguras em mim. Se me desentendo com a conturbada rotina de centro urbano, basta abrir a antiga gaveta e eis que retomo, com carinho, a memória da capital do interior que aqui existiu, há menos de uma década.

Foto: Thiago Lima

Foto: Thiago Lima


¹ Popular shopping de Brasília, localizado no início da Asa Sul. O centro comercial é bastante frequentado pelo público jovem e por famílias.

² Condomínio fechado pertencente à Região Administrativa do Distrito Federal, que engloba também o bairro Sudoeste.

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