Caro Santo Antônio,

Antes de mais nada, quero deixar claro: não acredito em santos, nem em milagres, muito menos em religião. Se você quer mesmo saber, eu não acredito em Deus. Em amor, nem se fala. Nenhum desses conceitos largos e abstratos, nos quais as pessoas se agarram com força para tentar sobreviver à crueza de ser humano, me convence. Mas é fato que cá estamos, em pleno mês de todos os santos. As moças do cerrado afogam a cabeça de suas réplicas, sempre envoltas em aureolas angelicais, na água. Elas querem um marido e você, casamenteiro que é, há de lhes trazer um ou mais.

Animadas com a possibilidade de encontrar um par, vão a arraiais e a qualquer tipo de eventos juninos onde haja maçãs do amor e correio elegante. Os rapazes repetem a cerimônia, com mais descrição – nunca admitem que, no fim das contas, buscam o mesmo que elas. Sejamos sinceros, meu santo, a verdade é que, o ano inteiro – acho que a vida até – a gente perambula por aí, em uma sequência de rituais desconexos sempre em busca do que jamais vamos encontrar: esse bendito amor romântico. Céus! Se ele existisse, o senhor não seria o santo das causas perdidas.

Eu sei lá, você pode alegar que sou cética. Não nego. Mas é exaustivo crescer num mundo guiado pelo ideal dos contos de fadas enquanto, na vida de carne e osso e problemas e defeitos, nunca se viu amor assim. A questão é, me corrija se eu estiver errada, nunca se viu amor algum. Não o amor que apresentam às criancinhas em histórias, filmes e sala de aula. A gente aprende cedo a desenhar corações e esperar – sentados – a outra metade da laranja. Que diabos! – me perdoe a expressão – Não faz mais sentido pregar a ideia de que já nascemos uma fruta inteira?

Mas não estou aqui para tentar te convencer de minhas (des)crenças. Até porque, se o senhor parar uma hora dessas para contabilizar quantos dos casamentos que você abençoou foram bem-sucedidos, aposto que vai ter uma desagradável surpresa. Ou melhor, não pare. Não conte. Não perca tempo. Vá tratar dos animais, dos estéreis, dos barqueiros, dos idosos, das grávidas, dos pescadores, dos agricultores, dos viajantes e dos marinheiros. Proteger os pobres e os oprimidos é causa muito mais nobre do que se preocupar com casamentos.

Assumindo que santos existam – embora eu não acredite em sua santidade –, acho injusto o que fazem com você. Por Deus, para que sobrecarregar um só santo com os infortúnios de toda a humanidade? Eu moro em Brasília, sabe. A gente do cerrado deve rezar um bocado para você consertar o monte de coisa errada que tem aqui. A cidade tem muitas grávidas, idosos e animais. Ainda que não conte com a fé de marinheiros e pescadores, pobres e oprimidos são vistos a cada (quase) esquina no planalto central. Eles erguem as mãos ao infinito implorando compaixão do primeiro deus que estiver disposto a se comover.

Talvez eu não acredite em amor por viver na capital. Não que a cidade não seja amável. É sim. Muito. O que me faz crer em amor a lugares e lembranças e neste gênero de sentimentos palpáveis ou que já estiveram, em algum momento, bem visíveis diante de meus olhos. Mas fica difícil acreditar em amor interpessoal quando as pessoas não parecem amar umas as outras. Calma, não estou falando tudo isso à toa. É que, mesmo achando que o conceito de amor romântico não existe, preciso deixar claro: não sou um monstro insensível. Acredito em atitudes. Acredito piamente em atitudes concretas. E em atitudes de amor.

Em Brasília, as pessoas tem mania de andar por vias e curvas de nariz bem empinado, sem se cumprimentar. Ora, moças – e moços –, para que Santo Antônio vai fazer milagre se vocês nunca estão olhando para frente para ver? Se eu pudesse fazer um pedido aos céus, pediria que os brasilienses trocassem mais sorrisos e cumprimentos. Um “bom dia” no elevador e um sorriso no sinal vermelho já poupariam as divindades de metade do trabalho. Haveria menos santinhos afogados se as pessoas, simplesmente, se permitissem surpreenderem-se umas com as outras, no dia a dia. Se o amor existe, ele não deve nascer de promessas ou preces, e sim de esbarrões e contato. Mas só se ele existir, o que eu duvido muito.

O fato, Toninho, é que não sei como desandamos nesta prosa sem fim. Escrevo só para trazer meus cumprimentos e também, por via das dúvidas – caso você seja santo mesmo –, para pedir uma ajudinha. Perdi um amor outro dia. Já pulei trinta vezes os três pulinhos para São Longuinho, e nada. Será que você consegue trazer ele de volta? Pode ser em 24h? Ou é pedir muito?

Cordialmente,
Seca Flor do Cerrado

Foto: Thiago Lima

Foto: Thiago Lima

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