Verde e amarelo

Segunda-feira, 17 de junho, 19h. O Congresso Nacional, onde, no primeiro dia útil de cada semana, costumam reinar a tranquilidade e o vazio, está cercado por mais de 10 mil manifestantes, segundo o comando da Polícia Militar (PM) do Distrito Federal (DF). A multidão está no gramado de frente para a principal sede política do país, separados do edifício por uma barreira policial.

Em coro e enérgicos, gritam frases prontas pedindo melhores condições de educação, saúde e transporte. De repente, um grupo pequeno observa que não há qualquer tipo de bloqueio ao acesso lateral para a plataforma que abriga as cúpulas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. Diante da descoberta, meia dúzia de manifestantes sobem o barranco em direção a pista do Eixo Monumental.

Os demais ficam apreensivos, sem entender o que está acontecendo. A maioria está recuada, com medo de novo confronto com a polícia, como ocorrera dois dias antes, no sábado (15/6), na ocasião da abertura da Copa das Confederações, em Brasília. Os policiais, igualmente, não sabem o que se passa. Atiram uma bomba de gás lacrimogêneo, na tentativa de contar o grupo, que reage tratando de escalar o barranco mais rápido.

Ao alcançar a pista, eles viram à esquerda e ultrapassam, num misto de pressa e cuidado, o fino bloco de concreto entre a calçada e a marquise. Lá debaixo, a multidão brada em aprovação. Mais gente segue o exemplo. A polícia não pode reagir, visto que a laje não possui proteção e alguma atitude brusca das autoridades colocaria em risco a segurança dos manifestantes. Em pouco tempo, centenas de jovens ocupam a plataforma, erguendo bandeiras do Brasil. Estendem um cartaz indicando que o povo tornou à Casa. Juntos, cantam o hino nacional. No dia seguinte, a imagem é capa de jornais em todo o país.

Foto: André de Azevedo

Foto: André de Azevedo

Brasília ocupada

A manifestação na Esplanada dos Ministérios foi um dos 12 protestos que aconteceram na última segunda-feira em diversas capitais brasileiras. Cidades interioranas e estrangeiras também apoiaram a causa. A capital irlandesa, Dublin, por exemplo, reuniu mais de duas mil pessoas nas ruas em apoio ao movimento que se expande com força pelo Brasil e no mundo.

A onda de protestos teve início no dia 6 de junho, quando a primeira manifestação do Movimento Passe Livre, que luta pela diminuição do preço das tarifas do transporte público, fechou a Avenida Paulista em São Paulo. Estudantes e trabalhadores se reuniram em um dos pontos principais da cidade para protestar contra o aumento da passagem de ônibus. A violenta repressão policial, que deixou diversos feridos, gerou revolta em jovens de todo o país. Em solidariedade aos manifestantes paulistas, grupos de diversos lugares se organizaram para ir às ruas reivindicar em prol do direito de protestar.

Em Brasília, um grupo de quatro estudantes universitários organizou o primeiro ato da capital, com dois objetivos: apoiar os protestos em São Paulo e opor-se, a partir do movimento “Copa para quem?”, aos altos gastos de dinheiro público na construção de arenas de futebol para os jogos da Copa de 2014, em divergência com o baixo investimento na qualidade de escolas e hospitais. Aproximadamente duas mil pessoas caminharam da rodoviária do Plano Piloto ao estádio Mané Guarrincha, passando pela Esplanada, na tarde de sábado (15), primeiro dia da Copa das Confederações no país do futebol.

O episódio contou com resposta truculenta por parte da polícia. Ação da tropa de choque da PM deixou feridos e atingiu torcedores na fila do estádio, assim como turistas estrangeiros que se encaminhavam ao local. Rapidamente, jovens organizaram nova manifestação via redes sociais e, dois dias depois, na última segunda-feira, reuniram número cinco vezes maior de protestantes. Era a Marcha do Vinagre na capital, nome dado em alusão à repressão policial feita em São Paulo à estudantes que carregavam vinagre nas mochilas, para amenizar o efeito de bombas de gás lacrimogêneo. Chocado, o Brasil assistiu a geração da internet, acostumada a restringir reclamações ao espaço virtual, tomar as ruas.

Rebeldes sem causa?

Mas o que leva os brasileiros a desviar a atenção da bola rolando em campo e voltar-se aos problemas sociais do país? Aliás, quais problemas pode ter um país com economia altamente aquecida, taxa de desemprego em torno de 5% e livre da crise mundial que afeta grandes nações mundo afora? Do que, afinal, a população tanto reclama?

Daniel Bastos, 30 anos, analista de estratégia em redes sociais, afirma que não é difícil definir a causa de qualquer protesto: “Alguma coisa está errada”, garante. O rapaz é o criador do grupo no Facebook “Mobilizados DF”, que conta com mais de 550 membros. A página é destinada ao compartilhamento de fotos, vídeos, relatos e imagens relacionados às manifestações e a tudo que os participantes identificam de errado na administração pública de Brasília.

No domingo (16), os manifestantes do cerrado reuniram-se para definir as principais pautas da mobilização. Segundo Georgiana Calimeris, organizadora dos protestos na capital, os principais temas votados pelo grupo foram a exigência de maior investimento em transporte público, o que abrange temas como a interrupção na obra do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) e o inacabado metrô do DF, assim como a não aprovação da PEC/37, que, se aprovada, vai tornar o poder de investigação criminal exclusivo para as polícias federal e civis, retirando a atribuição do Ministério Público (MP).

Os ativistas também pedem maior detalhamento e transparência com relação aos gastos com a Copa do Mundo e a investigação do Tribunal de Contas do DF (TCDF) e do MP pelas obras do Mané Garrincha, que custaram mais de R$ 1,5 bilhões aos cofres públicos, além de uma contrapartida diante dos investimentos de infraestrutura da Copa capaz de garantir um legado ao país após a realização do evento.

Mas muita gente ainda não entendeu o que desencadeia tamanha movimentação nacional. Os protestos são acusados de difusos e sem objetivos claros. O maior agravante na hora de esclarecer ao público não participante, contudo, é a não existência de líderes e o repúdio a ligações partidárias. Telespectadores e políticos se perguntam: quem está por trás desta multidão?

De acordo com a professora de história da Universidade de Brasília (UnB), Susane de Oliveira, o que vem acontecendo no país é bastante peculiar. “As pessoas estão se unindo em marchas e protestos de contestação social, em vários pontos do país, sem a necessidade de levantar bandeiras partidárias, e isso tem uma mensagem poderosa: a de que as grandes bandeiras partidárias não nos representam mais”, explica.

Daniel aponta que a novidade do movimento é que a geração atual não é liderada por movimentos ou grupos clássicos. Segundo o criador do “Mobilizados DF”, os jovens de hoje se reúnem em torno de uma indignação comum, por meio da internet. “É o povo por ele mesmo”, diz. Para ele, o brasileiro se vê enfrentando diversos problemas, justo no governo que vinha liderando uma grande revolução econômica e social. “Estamos sendo constantemente expostos a fatos que nos indignam e acabaram por levar a juventude entre 15 e 25 anos, criada e desenvolvida sob o governo atual, a desvencilhar-se de algum sentimento de ‘agradecimento’ dos pais, pelo partido de esquerda estar no comando de uma nação por tanto tempo abusada e explorada pelos partidos de direita”.

O apartidarismo político é característica marcante da nova abordagem que os jovens conferem às reivindicações. Susane explica que no mundo contemporâneo, as grandes manifestações vinham sendo promovidas por partidos políticos, organizações sindicais e trabalhistas, movimentos sociais e, especialmente, pela mídia televisiva, que sempre ditou as pautas políticas. A difusão da internet e das redes sociais, porém, oferece um espaço mais democrático para o compartilhamento de opiniões.

“No Facebook as pessoas estão aprendendo bem mais sobre as formas de construção e difusão da informação”, afirma a historiadora. Ela aponta que a ferramenta permite a todos os usuários se colocar como sujeito e protagonista das lutas sociais por melhoria. “É a democracia que se tornou visível no mundo virtual e que conseguiu ganhar as ruas.”

Foto: André de Azevedo

Foto: André de Azevedo

Daqui para a frente, tudo vai ser diferente?

Na tarde de quinta-feira (20/6), a Esplanada dos Ministérios aguarda mais de 60 mil pessoas para nova manifestação. Em São Paulo, Rio de Janeiro, outras capitais brasileiras e em cidades menores, a mobilização segue irredutível. Mas será que movimentos do gênero têm mesmo força para mudar o país?

Susane acredita que sim, mas, mas alega que “para produzir efeitos profundos de mudança na sociedade, é necessário manter esse espírito de contestação no dia a dia”. A especialista destaca que as manifestações desencadeadas em todo o Brasil são de grande relevância, a medida que estão voltando a atenção das pessoas para o campo da política e produzindo certa conscientização e olhar mais atento às ações de representantes governamentais.

“Quem diria que o brasileiro iria se manifestar dessa forma em meio à Copa das Confederações?”, questiona. Para ela, isso prova que a população não vive só de amor pelo futebol e é capaz de se mobilizar para a construção de um país mais justo e igualitário.

Daniel define, em poucas palavras, um sentimento generalizado de quem participa dos protestos: “Ninguém aguenta ser governado por quem só governa para si mesmo”. Os jovens continuam nas ruas. Apoiados na certeza de que já mudaram a história do país. A nação inteira desconfia – na torcida – que daqui para a frente, tudo no Brasil vai ser diferente.

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