Estádio do medo

Dia de (pré) Copa do Mundo¹ no país do futebol. O Brasil inteiro fica em polvorosa. Daquele jeito de sempre, todo mundo veste a camisa, enfeitam casas e carros de verde e amarelo, reúnem família e amigos para torcer pela vitória da nação. Em campo, brasileiro é sempre patriota. Mas a gente só estende a bandeira quando a bola está rolando, é o que ouço falar, desde a primeira Copa que presenciei, o grande tetra de 1994. Há outro boato que escuto por ruas e esquinas e conversas de quem viveu o conturbado período de ditadura militar ou outras tantas épocas difíceis que o país já enfrentou: essa geração, a atual, é completamente alienada. Apolíticos, ninguém sai das redes sociais, não lutam, não se manifestam – acusam os velhos entendedores de batalha.

“Essa geração” é a minha. Ouvi o discurso da alienação tantas incansáveis vezes que já estava quase convencida do veredito. Até a abertura da Copa das Confederações chegar à capital na tarde de ontem, o inesquecível 15 de junho de 2013. Movidos por uma onda de mobilização globalizada – na Turquia, na Grécia, na Espanha, na Síria e pelo mundo afora – e, em especial, pelos recentes atos de protesto na capital paulista contra o aumento das tarifas de ônibus, os brasilienses ocuparam o Eixo Monumental agarrados a cartazes, flores, vinagres, gritos de guerra e uma enorme vontade de mudar o país. Eram os jovens sendo jovens de novo. Querendo ver o Brasil vencer o jogo dentro e fora do estádio.

“Verás que um filho teu não foge à luta”, indicavam letras graúdas levantadas em um pedaço de papel. E confirmavam centenas de pessoas debaixo do sol desértico do planalto central, erguendo vozes e bandeiras e vontade de um Brasil melhor em frente ao novo Mané Garrincha. Pediam igualdade diante da aquecida economia nacional, refutavam o histórico cenário de corrupção, queriam explicações para os vasos de flores tentando esconder moradores de rua na rodoviária do Plano Piloto, buscavam respostas para as cirurgiais canceladas em centros de saúde da cidade às vésperas do jogo. Questionavam o desproporcional gasto com a Copa, em discordância com a precariedade da educação brasileira e a falta de estrutura para receber o evento.

A causa era justa. A gente bem sabe o quanto o país cresceu e tornou-se mais igualitário na última década, acompanhamos milhões e milhões de gente saindo da miséria, mães nordestinas colocando comida nos pratos de suas várias crianças, as classes C e D indo às compras com dinheiro nos bolsos, universidades cheias de estudantes de toda raça e cor e o desemprego tender a zero. Mas ainda não vivemos no país das maravilhas. Pelo menos no meu mundo ideal, não há mendigos deitando a cabeça em papelões para assistir de camarote o Congresso adormecer.

Aliás, em dez anos cruzando retas e curvas do cerrado, não vi manifestação alguma sem causa. A Esplanada dos Ministérios recebe todo tipo de protesto na vastidão de um gramado verde e planejado justamente para abrigar quem estiver disposto a lutar seja pelo que for. De grupos religiosos bradando não ao aborto até cidadãos exigindo a legalização da maconha. Digo com conhecimento de causa, a curiosidade jornalística – ou humana – já me levou a protestos pelas mais diversas temáticas. Em geral, a polícia escolta os manifestantes e tudo corre em paz. No mais pleno exercício de democracia.

Ontem não. Ontem testemunhei cenas à semelhança da tão falada repressão policial de décadas atrás. E ainda não descobri o motivo. Por volta das 14h, inúmeros jovens se amontoavam a beira do estádio, cantando, com a convicção de quem acredita que é possível fazer diferença, “eu sou brasileiro com muito orgulho, com muito amor”. Montados em imponentes cavalos, policiais fardados fecharam o grupo em um semi-círculo, a fim de acovardar a manifestação. Não funcionou, a princípio. Novo clamor implorava “violência não”. Era um movimento pacífico.

Até a tropa de choque jogar bombas de gás lacrimogêneo contra os protestantes. As tais bombas de efeito moral. O desespero foi generalizado. Nem os torcedores, na fila para entrar no estádio, escaparam da desnecessária e violenta ação policial. Muita gente corria para fugir da sensação de falta de ar, misturada com o efeito da garganta sendo ruidosamente arranhada quando se tenta inspirar. No meio da confusão, pessoas caíam, crianças choravam, um ou outro indivíduo se mobilizava para socorrer com pano e vinagre os que estavam para desmaiar, parte dos compradores de ingresso para o jogo expulsavam os manifestantes de perto da fila, empurrando-os de encontro à cavalaria. Havia xingamentos, de todos os lados. Um megafone no interior da arena anunciava, com disfarçado cinismo, que a tropa estava apenas controlando uma pequena manifestação na área externa, mas que todos podiam manter a calma. Não foi, claro, o que aconteceu. A polícia conseguira, enfim, instaurar o caos. E o medo. Era a prova da eficiência de um serviço que se propunha a garantir o bem-estar e a diversão da população.

Escapei fisicamente ilesa do primeiro ataque, mas desnorteada e perplexa com o ocorrido. Violência, para mim, é injustificável. Venha de um exército armado contra civis carregando flores, venha de um pai que dá um tapa no filho trinta anos mais fraco. Não, desculpa. Mas sou adepta do diálogo. Dá para resolver o mundo com palavras. Pena que não foi esse o posicionamento dos soldados candangos e de seus superiores na tarde de sábado. Depois de certificarem-se de que os torcedores estavam devidamente acomodados nas arquibancadas do Mané Garrincha, em segurança, a tropa partiu para nova afronta.

Dessa vez, além de bombas e cavalos, traziam armas, motos, viaturas e cachorros. Partiram para cima dos jovens com agressividade. O medo voltou com mais força. A correria recomeçou, agora sem rumo. Para onde quer que se correresse, havia bombas a explodir no chão. Enquanto a bola rolava por entre os pés de jogadores brasileiros e japoneses no interior do estádio, o campo lá fora estava minado de pânico e indignação – não só de brasilienses engajados no protesto, mas também de turistas, que pagaram caro para embarcar no cenário de guerra. A situação se repetiu por mais uma hora, talvez duas. Perdi a noção de tempo e só conseguia sentir medo. Não me machuquei, diferentemente de outros companheiros, atropelados por motos ou atingidos por balas de borracha. Nem fui presa, mas poderia ter sido. E, se tivesse, jamais saberia o motivo. Achei que o modelo de estado do país garantisse liberdade de expressão. Sem violência. Sem censura.

Passado o susto, ao caminhar em um estacionamento nas proximidades do Parque da Cidade, avistei uma van da Secretaria de Ordem Pública e Social ou coisa parecida. Decerto, estavam em busca dos desordeiros, pensei, assustada. A repressão gerou em mim tanto medo que, pelo resto do dia, atravessei as vias de Brasília meio às escondidas, como se fosse criminosa. Durante o confronto policial, quase me arrependi de estar lá. Por pouco, não me rendi e deixei a polícia ganhar a batalha. Então, lembrei de uma menina pequena e frágil que, no primeiro momento de ataque, insistiu, com calma e confiança, que resistíssimos, esticando os braços magros para dois rapazes ao lado, na tentativa de dar as mãos e formar barreira frente aos cavalos e armas. Alguém precisa confiar que dá sim para mudar o mundo.

Reafirmo, sou brasileira com muito orgulho, com muito amor. Ontem, porém, não senti esse orgulho todo do meu país. Mas, ainda assim, carrego o sentimento de vitória. Não só por ganhar o jogo, muito mais por ganhar as ruas. No fim, senti foi o maior orgulho de ser parte da “alienada” geração coca-cola.

Foto: André de Azevedo

Foto: André de Azevedo


¹ Início da Copa das Confederações no Brasil.

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