Salada para deputados

Brasília não se resume à Esplanada dos Ministérios. A sede política do país se estende por todo um planalto central além do Congresso. Mas, não dá para negar, o serviço público ainda sustenta parte considerável da população. Às vezes, de forma direta, outras, indiretamente. A Câmara dos Deputados, por exemplo, emprega mais de 18 mil pessoas nas salas e corredores do edifício central e dos quatro anexos da instituição, conforme apontam dados atualizados em fevereiro deste ano. Do lado de fora, nos jardins e estacionamentos, mais gente põe a mão na massa para bancar o alto custo de vida na capital do país. Guardadores de carro e ambulantes de todo gênero alimentício se espalham por entre os espaços externos da estrutura.

Isaelson Gonçalves de Souza, um mineiro simpático de 26 anos, há nove meses, juntou-se ao grupo de comerciantes da região. Todos os dias, ele e a esposa, Elida Cibele, 19, abrem duas mesas de lata no canto direito do túnel que leva do Anexo I para o edifício central da Câmara. Por volta das 13h30, organizam meia dúzia de caixas de papelão nas laterais das mesas, onde apoiam cinco vasilhas de plástico e duas tábuas de vidro coloridas com imagens de frutas. Armam-se com grandes facas de cabos brancos. Com cuidado e precisão, cortam em pedaços miúdos abacaxis, mamões, mangas, bananas, maçãs e quiuís. Eles vendem salada de frutas para funcionários do Congresso Nacional.

Nascido em Pedra de Maria da Cruz (MG), município pacato com pouco mais de 10 mil habitantes, Isaelson resolveu tentar a sorte na cidade grande há menos de um ano. A ideia cresceu devagar, ao longo de várias visitas que fez à irmã mais velha, migrante do cerrado há mais tempo. A irmã e o cunhado foram os precursores da família no ramo de comércio de rua. A banca de bolos do casal está instalada à beira do túnel faz 13 anos. Donos de outros dois pontos de venda em ministérios, eles começam a trabalhar no anexo por volta das 13h. Antes disso, diversos clientes passam no local perguntando que horas chegam os bolos.

Isaelson também já está conquistando clientela própria. Por volta das 14h30, ele dá início à sessão de entregas personalizadas pelo complexo de prédios da Câmara dos Deputados. Leva, uma por uma, as encomendas de cerca de 70 fregueses fixos, que encomendam o produto diariamente. Quando ele se esquece de passar em alguma sala ou gabinete, a cobrança não demora a chegar, por telefone: “Cadê minha salada?”, perguntam os clientes deslembrados, com fome.

O movimento é bom. São 120 porções de salada vendidas por expediente. Nas quartas e quintas, dias de sessão na Casa, o lucro é ainda maior. É quando eles oferecem, além de saladas, caldos quentes. A média de vendas também ultrapassa uma centena. Em épocas de manifestações populares, é preciso correr ao mercado no meio da tarde, para reabastecer o estoque de frutas. Foi o que aconteceu em abril deste ano, na ocasião do protesto de indígenas nas dependências do Congresso.

De manhã cedo, ao acordar, Isaelson liga a televisão no noticiário, para conferir se vai haver alguma manifestação na Esplanada ou mesmo para averiguar se os deputados estão para votar qualquer assunto polêmico no dia. Se o jornal confirma grande movimentação na Câmara, o comerciante trata de dobrar a quantidade de caixas que compra, todas as manhãs, na Ceasa do Setor de Indústrias Gráficas (SIA), o mercado é a central de abastecimento de produtos orgânicos do Distrito Federal.

O vendedor levanta-se às 6h30, toma um banho rápido e vai às compras. Às 9h30, com a ajuda de Elida, enche o carro com caixas de frutas e de leite condensado e dirige-se ao túnel entre o anexo e a Câmara. O retorno para casa depende da saída do produto. Quanto mais rápido as saladas se esgotam, mais cedo o casal volta para o apartamento alugado em um edifício de Vicente Pires¹. Lá, um pequeno cachorro ainda filhote os aguarda, em festa. O pinscher de poucas semanas foi presente de Dia dos Namorados de Isaelson para a esposa.

Quando há sessão, o rapaz vai noite adentro entregando saladas de frutas a funcionários do principal centro de gestão do governo. Ele gosta de trabalhar assim tão perto do poder. “A gente nem precisa assistir televisão, só de estar aqui já ficamos informados sobre tudo”, comenta. Contudo, sonha em ter um comércio regularizado. Quer ser dono de restaurante, comprar um lote próprio e um carro novo. Pode até continuar vendendo salada de frutas, não tem problema, ele e Elida nem enjoaram do gosto, ainda conseguem comer. Mas faz questão de que o negócio esteja dentro da lei. Só para não correr o risco de ser pego, a qualquer momento, por fiscalizações da Agefis (Agência de Fiscalização do Distrito Federal), órgão responsável por combater o comércio irregular nas ruas da capital.

A possibilidade de projetar-se enquanto comerciante foi o que trouxe Isaelson à Brasília. Em Minas, era preciso trabalhar árduo o mês inteiro para ganhar R$ 500. No planalto, apesar dos gastos serem maiores, o ganho compensa. Ele conquistou até mesmo a regalia de comer o que tem vontade, conforme relata. Além disso, os brasilienses são receptivos e amigáveis, coisa que o ambulante não imaginava. Na verdade, a expectativa antes de mudar-se para cá era inversa. Achou que fosse encontrar gente arrogante e fria, de acordo com discrições que ouviu por aí. Ao desembarcar no cerrado, porém, teve uma surpresa agradável. “Nas cidades grandes ninguém cultiva amizades, mas aqui é diferente”, explica.

De quando em quando, clientes cruzam pela banca trocando sorrisos, cumprimentos e brincadeiras com o casal. Mas não são só os candangos que puxam papo com os comerciantes. Aparece gente de todo canto, até de fora do país. Certa vez, um japonês investiu esforços na comunicação gestual e, por meio de mímica e apontamentos, conseguiu pedir uma salada de frutas. Ele não falava português, exceto por um ou outro elogio. Antes de ir embora, fez questão de elogiar o produto: “hum, gostoso!”. Em seguida, tratou de elogiar a dona do estabelecimento. Voltando-se para Elida, soltou um “bonita”, pronunciado de maneira desengonçada. Isaelson ficou enciumado, mas achou graça no episódio.

Casados há apenas três meses, os vendedores de salada de frutas namoram desde 2011. São da mesma cidade, porém, conheceram-se virtualmente.  Um dia, a irmã de Isaelson que trabalhava em um serviço de assistência à saúde no bairro de Elida, estava conversando com ela via bate-papo em uma rede social. O rapaz, que já havia reparado na beleza da moça, aproveitou o momento em que a irmã foi ao banheiro para teclar com Elida. Começaram a conversar com frequência e, sem demora, apaixonaram-se.

Os dois são parte da imensa parcela de moradores do Distrito Federal que vive às margens do poder, acompanhando de perto e em anonimato a história do país sendo construída, dia a dia, no Congresso Nacional. Fora do planalto central, quase ninguém sabe da existência deles. Nem mesmo os deputados com quem Isaelson esbarra nos corredores sabem. Mas uma coisa todo mundo deveria saber, Brasília é feita muito mais do que por políticos. A capital é habitada por gente. Gente como Isaelson, que deposita sonhos no concreto da Esplanada e trabalha duro para torná-los tão real quanto esta cidade, que, um dia, outros sonhadores ergueram do nada.

Foto: Thiago Lima

Foto: Thiago Lima


¹ 30ª Região Administrativa do Distrito Federal, emancipada em 2009.

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