Quadras da morte

Brasília é uma cidade organizada em setores. Tem setor de hospitais, de farmácias, de diversão, de indústria, de hotéis, entre outros. Eles aglomeram em um só espaço serviços do mesmo gênero, a fim de facilitar o acesso da população. Há setores nas asas Sul e Norte, assim como nas demais regiões administrativas do Distrito Federal. Na capital brasileira, até os cemitérios têm setores. Não há um setor específico para as seis unidades, localizadas em Asa Sul, Taguatinga, Gama, Sobradinho, Planaltina e Brazlândia. Mas todas respeitam a regra de organização.

O principal cemitério de Brasília, o Campo da Esperança da Asa Sul, por exemplo, é dividido em setores internamente. As sepulturas são alojadas em quadras numéricas, conforme previsto no projeto original da cidade. Desde 2002, os sepultamentos realizados seguem o modelo cemitério-parque, o mesmo adotado nos Estados Unidos e em alguns países da Europa, que consiste em identificar os jazigos apenas por uma placa e, no máximo, um castiçal.

No local, túmulos de diferentes tamanhos e formatos, construídos com mármore e granito, só são encontrados em quadras que abrigam os jazigos antigos. O novo modelo é utilizado há pouco mais de dez anos, a partir de decisão do governo local de privatizar serviços do gênero. A empresa Campo da Esperança Ltda., que recebeu a concessão das áreas, adotou o padrão na tentativa de modernizar e de adiar a longevidade dos cemitérios do DF.

A artesã Juany Ferreira, contudo, alega que as mudanças prejudicaram os pequenos comerciantes que trabalham na região. As vendas na banca de lápides e sepulcros de Juany caíram bruscamente nos últimos anos. Hoje, o produto que mais tem saída no empreendimento são molduras pequenas e ovaladas com fotos dos falecidos. Os clientes levam, em média, cinco por dia. Mas, em alguns dias, as prateleiras ficam intactas. Nada é vendido. A situação se repete nas outras cinco lojas do ramo à entrada do cemitério do Plano Piloto.

Com a privatização, não é mais permitido que os estabelecimentos se fixem no interior do cemitério. Mas há uma categoria que ainda pode percorrer os corredores mais antigos da necrópole livremente. São os jardineiros. O cearense Francisco Bento dos Santos, que há 22 anos oferece serviços para cuidar de túmulos no cemitério, é um deles. O jardineiro conta que 450 trabalhadores desenvolvem a função na sede da Asa Sul.

O ofício consiste, basicamente, em realizar manutenção de jazigos e dos arredores do túmulo. São os jardineiros que mantêm em ordem as sepulturas. Eles limpam o ambiente, plantam flores, regam e podam as plantas. A atividade, porém, é autônoma e desvinculada da empresa responsável pelo cemitério. Familiares contratam o serviço com o intuito de preservar os sepulcros e pagam taxas mensais aos jardineiros pelo trabalho. Francisco encarrega-se de 80 sepulturas.

O jardineiro é um senhor de 57 anos, simpático e conversador. Mudou-se para Brasília no início da década de 1990 e constitui família na cidade. Orgulhoso, ele relata que conseguiu formar duas filhas por meio do que recebe no cemitério. Francisco é grato à cidade e ao Campo da Esperança. “O que eu tenho consegui aqui”, afirma. Morador do Riacho Fundo I¹, o emprego lhe rendeu duas casas próprias e dois carros, além da possibilidade de criar cinco filhos.

Juany, por sua vez, não tem o mesmo gosto pela capital. Bahiana do município de Feira de Santana, ela tem vontade de voltar às raízes e deixar o cerrado para trás. Não gosta dos brasilienses. “É cada um por si, na Bahia as pessoas tem mais amor”, explica. O marido – também artesão – e os dois filhos adolescentes, todavia, discordam. São muito apegados à cidade, conforme relata a vendedora de lápides. A família mora na Estrutural e há 30 anos sobrevivem com a renda advinda de rituais de falecimento.

A proximidade com a morte abre caminhos para se pensar mais sobre a vida, observa Juany. “É mais fácil refletir a vida vendo a morte”, diz. Segundo ela, é comum presenciar cenas de total desespero por parte de parentes e amigos diante do óbito de pessoas próximas. “Já vi gente gritando com o morto dentro do caixão, mandando levantar e sair andando”, relata. Mas ela está segura com relação ao assunto. Evangélica, confia que, ao morrer, vai direto para o paraíso.

O Campo da Esperança possui estreitas relações com a religiosidade possuem, como é recorrente em cemitérios. A unidade da Asa Sul abriga espaços reservados para israelitas e outro para islâmicos. Conta também com dois templos ecumênicos e dez capelas. Todos os dias, ocorrem em média 12 sepultamentos no local, cuja capacidade suporta até 20 enterros.

Existem também áreas específicas para os jazigos sociais, que são gratuitos, e espaços reservados para pioneiros, ou seja, para os primeiros habitantes da cidade que vieram para o planalto central construir a capital. Existem 50 funcionários envolvidos com a preservação do cemitério, dentre eles, oito são coveiros. Morrer, porém, demanda mais que o esforço de cavar um buraco e depositar o corpo dentro. Dependendo das condições financeiras do indivíduo, morrer custa caro.

O valor do serviço mais simples em qualquer um dos seis cemitérios administrados pela Campo da Esperança Ltda., por exemplo, é de R$ 493. O preço corresponde à taxa de sepultamento e inumação e ao arrendamento de um jazigo com uma gaveta. O mais completo, com todos os opcionais oferecidos pela empresa, é de R$ 2.289, com jazigo perpétuo de três gavetas, taxas de sepultamento e inumação, locação da capela e identificação.

Mas, se morrer não é barato, viver, nem se fala. Francisco relata que, para exercer a tarefa de jardineiro, é preciso comprar caixas d’água diariamente. Desde a privatização do cemitério, o lugar não disponibiliza torneiras. Os trabalhadores se viram como podem. Compram 1100 litros de água por R$18. Em algumas ocasiões, gastam quatro vezes este volume em um só expediente. Reclamam da administração, mas dão um jeito de continuar com o serviço. Assim como Juany e a família, cujo lucro da banca de lápides diminui drasticamente nos últimos anos. Entre a vida e a morte, todos seguem na luta para sobreviver.


¹ Região administrativa de número 17 do Distrito Federal, originária da granja de mesmo nome, localizada às margens do ribeirão Riacho Fundo. A RA foi criada em 1993 a partir um de programa de assentamento do governo. Até 2003, a administração era dividida entre Riacho Fundo I e II. Hoje, as áreas são independentes.

² A Cidade Estrutural é uma subdivisão do Setor Complementar de Indústria e Abastecimento (SIA), uma das regiões administrativas do Distrito Federal. Próxima do Lixão da Estrutural, maior deposite de resíduos de Brasília, a área possui péssimas condições de saneamento básico, educação, saúde, segurança e infra-estrutura.

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