A dez mil pés

Escutou, apertando bem forte as pálpebras para ver se não sentia nada, o som de mais uma aeronave. Ela veio suave e pousou com elegância as turbinas sob a terra vermelha do planalto central. De cima, deve dar para ver as asas escancaradas da cidade, pensou. Centenas de aviões cortam o cerrado, todos os dias. Qualquer hora, ele ia descer, carregando, com dificuldade, uma mala pesada, com o mundo inteiro dentro. Ela sabia. Já tinha arrastado pelas mesmas esteiras peso semelhante.

O aeroporto é diferente da rua. Nele, corpos se passam e se esbarram e nenhum vem ou vai despercebido pelo portão de embarque. As calçadas são como a rotina, a gente se cruza, apressados, sem se reparar. Na pista de decolagem não. Quem está ali observa com firmeza e carinho toda e qualquer feição ao redor. É um lugar de despedidas e é das cenas de adeus que as pessoas retêm lembranças. Mais tarde, usam essas memórias para quitar a dívida com a saudade. Pagam tudo em suspiros e lágrimas.

Estômagos atravessam os longos salões de espera puxando bagagens de rodinhas, embrulhados com a sensação de última vez. Cabeças andam erguidas, empinando narizes, para não ceder ao perigo iminente de voltar atrás. Ninguém que vai embora faz ideia do que acontece depois que se ultrapassa o céu. Ninguém que fica sabe onde leva o imenso buraco aberto por quem partiu.

Outra noite, já devia ser mais de 3h da manhã, o telefone soou estridente. Ela apalpou a mesa de cabeceira em gestos sonolentos, sem a menor certeza se aquilo era real. Quando atendeu, soube: só podia ser sonho. A voz vinha distante um oceano e várias estações. Parecia desestabilizada. Vai ver era o fuso. Mas o tom com que soletrava, desafinado, sílaba por sílaba, era inconfundível. Era ele. Por que a ligação repentina com um vácuo de tempo e espaço onde só cabiam ressentimentos? Amores passados não deveriam ter telefone, nem endereço. Nem qualquer outro resquício pessoal que prove que a vida continua, independente de a gente não continuar mais juntos.

– O que você quer de mim? – perguntou ela. Respiração ofegante. Precisava de dois ou três segundos para retomar o fôlego.

– Senti saudades.

– Já faz tanto tempo…

– Eu pensei em você, todo esse tempo.

– Claro, enquanto você estava com outra pessoa.

– Sim – ele hesita – E enquanto você estava com várias.

Silêncio. Não havia nem meio centímetro reservado para desculpas ou justificativas na mala que ele estava arrumando para voltar para casa, a qualquer momento. Ele encontrava-se vazio de mágoas e achou que, quem sabe, não estivesse sozinho.

– Te vejo no aeroporto, Ana?

– Te vejo por aí, João – disse ela, ao colocar o aparelho no gancho com irritação, decidida a desligar-se dele em definitivo.

Ela tinha razão. Eles iam mesmo se ver por aí. Há uma grande aeronave estacionada no coração do país. Quem embarca na viagem brasiliense precisa, vez ou outra, se deslocar pelo corredor ou mudar de poltrona. Não dá para viajar uma vida inteira sentado no mesmo lugar. Nem dá para fugir pela janela lateral. Janela de avião não abre. São os encontros ao acaso que mantém a pressurização do ambiente. Ainda assim, ser passageiro é correr o risco de ficar sem ar. Em Brasília, sobrevoando os dias, a gente se vê, aqui ou ali. É inevitável.

Foto: Thiago Lima

Foto: Thiago Lima

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