Batida de banana

Aumentou o volume do som e sentou-se de cócoras no chão frio. Apoiou um dos braços nas pernas, enquanto com o outro segurava o queixo. Era uma noite amena de quarta-feira. A fricção dos carros contra o asfalto, que ressoava dentro do cômodo de janelas cerradas, indicavam com precisão tudo que ia pela vida. Normalidade. Rotina. Estabilidade. O mundo inteiro deu para ficar bagunçado só ali. Não à toa. Brasília parecia pequena para todas aquelas relações que eles inventaram de inventar, paráfrases da quadrilha de Drummond. Um ama o outro, que ama um terceiro, que ama o quarto, que não ama ninguém e acaba com um quinto, que nem sequer entrou na confusão.

Fitou o teto, desolada. Será que um dia as coisas iriam se organizar? Questionou-se, enquanto desviava o olhar para baixo. Ainda podia ver os dedos finos e longos de Túlio espalmados em uma mancha de suor contra a parede. O desenho, sobre a cama, era indício concreto de que ele existira. Bem ali. Junto dela. Não fazia muito tempo. Ou fazia. Os meses corriam mais depressa que os carros no Eixão¹. Só a presença dele permanecia, como as árvores encurvadas ao longo da pista. Projetando sombras na claridade dos dias de Camila.

A história era mais ou menos assim, um dia Luís, então namorado de Camila e melhor amigo de Túlio, apresentou os dois. Eles não se gostaram, mais por implicância que por falta de afinidade. A ideia de dividir o afeto de Luís era ruim, pensavam. Besteira. Não demorou, o rapaz deixou de ser razão de apego tanto para ela quanto ele. Tempos depois, esbarraram-se em qualquer eixo e, ao se cumprimentarem por educação, perceberam que não tinham motivo algum para tanto desgosto. Tornaram-se amigos. Dividiram amizades.

Camila conheceu Gustavo, Vinícius e Igor. Túlio entrosou-se com Eliana, Natália e Patrícia. Quando se deram conta, já eram um grupo. Mais que amigos até. Eram uma espécie de oiteto colorido. Feitos de enrolações e troca-trocas, resultado de impulsos e paixões. Meio amor livre, mas completamente presos ao carinho mútuo e ao egotismo individual.

Em uma noite de poucas nuvens, Vinícius encantou-se por Camila. “Só quero ver o dia amanhecer ao seu lado”, disse, em tom sincero, enchendo os olhos da garota de emoção frente a tanto sentimentalismo barato. Abalada devido ao recente término de namoro – não com Luís, mas com Artur, romance que não cabe neste conto –, ela não teve dúvidas: apaixonou-se. Imergiram em um relacionamento aberto por meses a fio. Sem um beijo ao menos, só com extensos diálogos e reflexões sobre modos de ver a vida. Se amavam de alma, não de corpo ou pele ou coração.

Eliana, enquanto isso, deslumbrou-se com Igor. Um moreno bonito e sensual. Perderam-se em devaneios sob as cobertas, desvendando-se em uma dúzia de horas, para nunca mais. Ele preferia a liberdade ao amor. Sempre preferiu. Até que lhe provassem o contrário. Foi isso que Natália tentou fazer, em determinada altura, entregando-se de todo ao charme quase adolescente de Igor. Tentaram uma, duas, três vezes. Mas sentimento é via de mão-dupla. Caso contrário, desemboca em rua sem saída, em lugar nenhum.

Como o que não falta em Brasília são vias, Natália virou à esquerda na primeira tesourinha que enxergou e arriscou pegar caminho perpendicular. Bateu de frente com Gustavo. O encontro, porém, não casou impacto de pernas bambas em nenhuma das partes. O garoto deu ré e foi para o lado contrário, onde Patrícia caminhava, distraída. De mãos dadas, eles passearam por concretos e cerrados. Pena que as bocas não queriam se entrelaçar como os dedos. No fim, era carinho, não desejo.

Natália estacionou na vaga prioritária de Camila. Trocou dois ou três beijos com Vinícius que, adepto da desordem, retrucou carícias também com Eliana. No meio da bagunça, Túlio acelerou diante do sinal verde de Camila. Eles misturaram bem todos os sentimentos naquele círculo viciado e sacodiram bastante, feito batida de banana em liquidificador, até dar enjôo. Acrescentaram Augusto, Pedro, Maiara, Rafaela, Tiago, Amanda e Roberto à receita, para complicar mais o enredo. Ninguém descobriu, afinal, como atravessar sem ser atropelado a sutil linha contínua que separa amores de amizades.

Camila espiou por entre as persianas a vida lá fora. Talvez as coisas jamais se organizassem como as retas e as quadras enumeradas. Sentir não é regular. Amar tem muito mais a ver com transbordar metros de imprecisão. O toque agudo do celular chamou-a de volta ao quarto. O ruído ecoou nos pensamentos da moça dando-lhe leve susto. Voltou-se para a mesa de cabeceira e apanhou o aparelho. Identificou o número e sorriu, em dúvida se  deveria ou não atender. A vida é tão cheia de surpresas.

Em seguida, agarrou a bolsa, apagou a luz e deu meia volta, deixando no escuro o que sobrou da lembrança de Túlio. Ela foi sei lá para onde. Vai ver, a ligação era um convite para enrolar ainda mais a trama. Ou para desenrolar de vez. A graça dos amores reais é que a gente nunca sabe quem vai formar par romântico no episódio de amanhã.


¹ O Eixo Rodoviário de Brasília (DF-002), mais conhecido como Eixão, é, junto com o Eixo Monumental, uma das duas linhas que se entrecruzam dando a forma básica ao Plano Piloto. Possui 13 quilômetros e meio de extensão.

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