O maior do mundo

Em 1986, Renato Russo cantou, pela primeira vez, o encontro que deu início ao romance do famoso casal brasiliense Eduardo e Mônica: foi no parque da cidade. Ela estava de moto; ele, de camelo – ou bicicleta, traduzindo a gíria local. A partir daí, o parque ficou conhecido por todo o país. Para os moradores de Brasília, desde outubro de 1978, o lugar já está completamente inserido ao cotidiano da capital. São 4,2 quilômetros quadrados de extensão bem no centro do Plano Piloto, com entradas pelo Eixo Monumental, setor de Indústria e quadras 901, 906 e 910 sul. O Parque Sarah Kubitschek¹ é o maior parque urbano do mundo, ultrapassando até mesmo o Central Park de Nova York². “É quase uma Asa Sul inteira”, explica o administrador do parque, Paulo Dubois.

De segunda à sexta-feira, cerca de 40 mil pessoas apropriam-se das vias e espaços do parque, usufruindo do paisagismo de Burle Marx. Aos sábados, esse número aumenta em 50%. Porém, dia de ir ao parque mesmo para os candangos, é o domingo: 80 mil brasilienses se dirigem ao local para caminhar, correr, passear, andar de bicicleta, skate ou patins, jogar bola, tomar sol, fazer piqueniques, conversar, cantar. Além disso, também é comum a ocorrência de manifestações populares e religiosas. O uso dado pelos moradores à área é grande e variado. O administrador relata que, na semana passada, a população mobilizou-se e promoveu um evento no parque infantil Ana Lidia, o maior e mais frequentado do total de oito parquinhos existentes no espaço. O episódio foi o Dia Mundial do Brincar, em Brasília. Adultos, crianças, jovens, pais e filhos participaram de rodas, promoveram jogos e atividades e divertiram-se com a apresentação de palhaços ao longo de todo o dia.

Opções de lazer não faltam no parque. A estrutura conta com 24 quadras esportivas de basquete, vôlei, futsal, tênis, entre outras; 85 churrasqueiras; academias ao ar livre; e lagos artificiais espalhados próximos às pistas para pedestres. Dubois afirma que só o parque Ana Lidia, por exemplo, recebe mais de mil crianças diariamente. De 2011 para cá, a frequência diurna ao Parque da Cidade cresceu em 25% com relação aos anos anteriores. Já a frequência noturna, aumentou em 1000%. A principal causa disso, acredita Dubois, é o controle pela administração às festas noturnas realizadas no espaço.

Antigamente, era possível realizar eventos no perímetro do parque sem autorização prévia da administração. A falta de fiscalização acabava por estimular a disseminação do narcotráfico e a incitação à violência e à prostituição. Hoje, a prática desordenada de festas foi proibida. Elas só acontecem se estiverem devidamente normatizadas. Como medida para combater a ocupação indevida da área, os estacionamentos ficam fechados da meia-noite às 5h. O que acarreta o aumento do uso do parque de outras maneiras. Segundo Dubois, as pessoas não têm mais medo de frequentar as quadras de esportes depois das 21h.

A questão da segurança no parque, contudo, ainda deixa os usuários apreensivos. Furtos de objetos e de veículos são constantes. Assaltos à mão armada também ocorrem, ainda que em menor quantidade. Na última segunda-feira (27/3), por volta das 17h, uma voz informou, via rádio portátil, ao vigilante Carlos Alberto Araújo sobre tentativa de furto de carro. “Pegamos o ladrão no ato”, relata o colega de Carlos pela transmissão. Mas nem sempre a equipe de segurança do parque consegue evitar os crimes. Os 60 vigilantes, divididos em quatro turnos de trabalho, realizam rondas frequentes, apoiados pelo serviço da Polícia Militar. Ainda assim, devido a grande extensão do parque e pelo fato de o espaço ficar sempre aberto, é difícil controlar todas as manifestações de violência.

Em seis meses trabalhando no local, Carlos já presenciou alguns crimes, como a ocasião em que um ladrão roubou a bolsa de uma senhora no parque infantil. O rapaz saiu correndo e ninguém conseguiu pará-lo. Segundo o vigilante, são vários os elementos que podem facilitar a atuação do bandido, o principal deles, é a falta de atenção por parte das pessoas. Ele orienta que é preciso ter cuidado com os pertences e andar alerta, para evitar qualquer tipo de abordagem inesperada. Os problemas estruturais do espaço também abrem margem para a criminalidade, é o caso da falta de iluminação em determinadas áreas do parque, conforme esclarece Carlos.

Instalado no balcão do vestiário, ao lado do Nicolândia³, ele recepciona quem chega para apresentar a documentação exigida, a fim de tomar uma ducha ou usar os sanitários. Confere mais de 500 carteiras de identidade durante as 12 horas seguidas de expediente. Depois de cumprir a carga horária, tem 36 horas de descanso. Ele é brasiliense de origem e vive no Núcleo Bandeirante. Aos 46 anos de idade, três filhos e um casamento, o vigilante é um homem de aparência tranquila, bochechas grandes e cabelos castanhos cortados bem rente à cabeça. Carlos mora em uma chácara com os cinco irmãos e quando não está trabalhando no parque, trabalha na roça. “Capino, corto árvores, cuido de cachorro, pato, ganso e marreco”, conta. Já no parque, além da tarefa de recepcionista, costuma fazer rondas. De tempos em tempos, circula pela área, atento, para conferir se está tudo certo.

O policial militar aposentado Lourival Joaquim Antunes, por outro lado, completa uma volta inteira no local despreocupadamente, com paradas estratégicas aqui e ali, para retomar o fôlego. Nascido em Minas Gerais, ele está em Brasília desde os dez anos. Atualmente, aos 53, mora na Asa Sul e é frequentador assíduo do parque. “Não tenho nada para fazer, gasto meu tempo aqui”, explica. Ele acorda cedinho e por volta das 7h dá início à caminhada matinal, que se estende até o horário do almoço ou até quando a fome bater.

Mas a rotina de Joaquim é assim há pouco tempo, faz um ano apenas. Antes disso, ele morava no Núcleo Bandeirante e visitava o parque só por causa dos botecos, é o que relata. Agora, viúvo e com os dois filhos já adultos, despende as horas da aposentadoria no local, onde se exercita, admira a paisagem e toma uma cerveja gelada no Pirraça, tradicional bar no perímetro interno do parque da cidade. Ele acredita, contudo, que falta manutenção ao espaço. “Tem que revitalizar, o parque está estagnado”, afirma.

Paulo Dubois garante que a administração atual tem se esforçado com afinco pela melhoria das condições físicas do parque e também para ampliar cada vez mais a ocupação do ambiente pelos usuários. “Esse é um espaço democrático e diverso, que representa bem Brasília”, observa o administrador. Dubois explica que estão sendo realizados investimentos em reformas e na construção de uma pista de apoio para veículos, assim como na obra para uma nova entrada na quadra 912 Sul. Enquanto isso, os brasilienses aproveitam o parque que têm – que não é pouco, nem pequeno.

Foto: Ana Júlia Melo

Foto: Ana Júlia Melo


¹ Nome oficial do parque, em homenagem à esposa do ex-presidente Juscelino Kubitschek.

² A extensão do Central Park é de 3,4 km².

³ Parque de diversões de Brasília, localizado no parque da cidade.

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