Comida típica

Dia desses, o pessoal lá da terra do Tio Sam abriu as fronteiras para receber variações de fast food para além dos nacionais Mc Donald’s e Burger King. Miami importou uma franquia tipicamente brasiliense, o Giraffas. Longe de mim fazer publicidade, não sou da área, nem é a intenção. Mas há que se admitir: não é qualquer um que consegue disseminar a velha cultura do feijão com arroz assim, em série, mundo afora.

Todavia, não são só os pratos feitos do jeitinho brasileiro que despertam em candangos o desejo de se entregar aos sabores do restaurante. Tem algo a mais. Antes, era o preço acessível, que agora já subiu à altura de outras redes similares. Mas custo benefício e barriga cheia não bastam, é preciso ir além. Na oferta do cardápio, letras miúdas e transparentes, revelam o que leva muito cliente ao estabelecimento: tradição. Uma cidade que se preze, tem lanchonete típica. Brasília tem uma rede inteira.

Existe Giraffas em todo canto: em praça de alimentação de shopping chique ou no meio de barraquinhas na feira, por entre mansões do Lago Norte ou próximo a casebres no Paranoá. Sem contar com Riacho Fundo, Gama, Recanto das Emas, Candangolândia ou São Sebastião. Ah! Também Santa Maria, Samambaia e Planaltina¹. Entre outras tantas lojas escondidas em ruas remotas, sem ou com esquinas, para alimentar essa gente que tem fome e precisa de opção mais nutritiva que só o sol e a chuva do planalto central.

A rede é ponto de encontro. Já ouvi – não uma, nem duas vezes – cidadãos marcando de se ver hora dessas, sei lá, no Giraffas da 209 Norte, por exemplo. Aquele que fica em uma das (quase) esquinas de Brasília. Outro dia, andava eu por lá. Era horário de almoço. Sem querer, acabei por presenciar um encontro. Dois amigos de longa data, após tempos sem notícias, se esbarraram na fila. Abraçaram-se com força, compartilhando tapinhas de leve nas costas. “E aí, fulano, quanto tempo! Você sempre por aqui”, diz um deles, alegre pelo acaso. “Você sabe, é praticamente a cozinha da minha casa”, explicou-se o tal fulano. E já emendaram em novos assuntos, para não perder a oportunidade de botar o papo em ordem.

Imagine você, prezado leitor, que em certa ocasião – contaram-me – um grupo de jovens saiu às voltas pela cidade, à procura de festas e boas histórias ou, simplesmente, de algumas doses de felicidade – não sei ao certo, mas devia ser algo assim, pelo que bem conheço dos jovens. Não acharam, contudo, nada próximo disso. Giraram por tesourinhas, andaram em intermináveis retas, viram espécies de reuniões sociais com tipos mais estranhos e mais esquisitos do que Renato Russo poderia imaginar, conforme vieram a descrever depois. Mas nada de eventos bem-sucedidos ou noites promissoras. Foi quando, aí pelas 3h, tiveram a ideia de lanchar. Não só pela fome, mas, em especial, porque lembraram-se de um Giraffas de esquina que funciona 24h e é sempre bom lugar para se matar as horas e falar da vida. Lá passaram o restante do tempo, às gargalhadas. Era preciso retomar, em sequência, cada uma das desventuras da madrugada. Era preciso, em especial, usufruir da juventude, dos momentos, do encontro. Da amizade. Lá era um bom local para juntar tudo isso.

Se a capital fosse São Paulo, as pessoas iriam comer um cachorro quente na Augusta ou talvez alguma variedade da culinária oriental no Liberdade; caso se tratasse do Rio, dava para beliscar um pastel na Lapa ou um chopinho gelado com batata frita à beira do mar de Copacabana; em Salvador, boa opção seria deliciar-se com um acarajé da Dinha. Mas, como a capital é Brasília, o jeito é ir para o Giraffas. O que não é, contudo, problema. O povo sai de lá satisfeito. De barriga cheia. E, às vezes, dá para encher até o coração.


¹ Candangolândia, Gama, Lago Norte, Planaltina, Recanto das Emas, Riacho Fundo, Samambaia, Santa Maria e São Sebastião são regiões administrativas do Distrito Federal.

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