Sugiro um café

No meio do caminho, Alfredo desacelera o ritmo para ouvir dois desconhecidos trocarem conselhos sobre desilusões sentimentais. A forma mais fácil de esquecer um amor é transformá-lo em literatura, garante um deles, o mais alto, de barba mal feita. Segura com os braços finos uma pasta e duas grossas apostilas. Talvez seja professor de português de alguma escola próxima. Ou, quem sabe, um raro exemplar de romântico avulso por quadras e superquadras. Alfredo supõe, mas jamais saberá. Continua a ouvir o diálogo, compenetrado. “Besteira, um novo amor basta”, discorda o outro – baixinho, de cabelos lambidos e oleosos.

Nenhum argumento serve ao rapaz. Ele não tem a menor habilidade com as palavras. Não conseguia escrever com coerência nem os cartões que Maria Eduarda implorava para que ele redigisse em datas comemorativas – ela preferia os bilhetes aos presentes. Um livro então, nem pensar. E, ainda que a graça do amor seja mesmo essa incoerência toda, ele guarda nos bolsos uma certeza, apenas: um amor daqueles não caberia nas páginas de um livro. Por não ter a menor intenção de desbotar com o tempo.

Alfredo trata de controlar o riso e normalizar o passo. Precisa chegar, em poucos minutos, à comercial da 214 Sul, onde marcou de encontrar com Duda. Engraçado ele achar, por instantes, que pitacos de estranhos lhe poderiam ser úteis. Que ideia! Nem a sugestão da tia, aquela história de novo corte de cabelo ou de mudar o visual, surtira efeito. Não adianta, às vezes, nem o tempo – que já se esgotou, de tanto ser citado – resolve. Imaginem vocês que, quatro anos depois, três namoros e um punhado de frustrações, lá está ele, prestes a reencontrá-la. Em um café discreto, para que ninguém os veja ou perturbe. Quer dizer, se ele está lá – e ela também – todos esses meses e dias e estações não adiantaram. Esquecer não tem fórmula. Não é uma receita que se compra na banca de revistas da esquina. Ou é. Sei lá. Deve depender do tamanho do sentimento. O deles é bem grande.

A vida leva jeito para roteiro de comédia meio dramática ou drama um pouco cômico, cheia de ironias, toda engraçadinha. Fez Alfredo e Maria Eduarda se encontrarem sem se descobrir um monte de vezes. É que o mundo é pequeno. As cidades, nem se fala. Dá para contar nos dedos das mãos as retas que formam Brasília. Por isso, eles acabavam, sem desconfiar, sendo figurantes nas histórias de amigos em comum. Até que um dia, a história deles começou a acontecer assim, cruzada, depois se juntou completamente, aí separou, descruzou, foi e voltou. Foi e ficou. Acabou.

Não sei. Amor não acaba rápido como um pôr do sol na Esplanada.

Ele desponta na (quase) esquina de cima. Desce a rua apressado, mas com cuidado para não escorregar nas poças d’agua. Ao se aproximar, fecha o guarda-chuva.

Entram no estabelecimento em silêncio.

Ela pede um café, sem açúcar. Ele, uma água com gás, por favor. Alfredo não gosta de café, o sabor amargo e o cheiro forte lhe embrulham o estômago. Duda não bebe qualquer gaseificado. E nessas contradições mínimas, eles percorrem, exautos, o ciclo de gostos e desgostos que faz eles se gostarem às avessas.

– O que nos traz aqui? – pergunta ele, sereno.

– Não sei muito bem – ela franze a testa como se estivesse mesmo a procurar uma resposta objetiva que sabe não existir.

Reflete por um instante e devolve a pergunta:

– O que te traz aqui?

Ele fica surpreso.

– Você me chamou.

– Não. Quero dizer, por que você veio. O que, afinal, você gosta em nós?

– Os nossos momentos juntos.

De cabeça baixa, ela sorri.

– Eu gosto das nossas conversas – acrescenta ele, com voz macia.

Ela fica desconcertada. Desvia o olhar, enquanto desenha com o indicador direito rabiscos imaginários na mesa. É seu jeito discreto de canalizar em qualquer canto todos os sentimentos que acha que não deveria sentir e não sabe muito bem onde despejar.

Lá fora, carros deslizam lentamente sobre a via. A chuva faz Brasília parar. Cigarras cantam a mudança do clima. Luzes começam a se acender em apartamentos do bloco da frente. O trânsito intenso indica que são seis da tarde, hora de voltar para casa. Ninguém, nas calçadas ou veículos, imagina que, em uma daquelas mesas de um café qualquer da comercial, Alfredo e Duda tentam esclarecer, em poucas frases, anos de dúvidas e ressentimentos.

– E você, o que você gosta em nós? – é a vez dele.

Ela lembra-se de quando estar com ele era como estar diante do mar. Era como se o mundo inteiro estivesse bem na frente dela. Ela nem precisava mergulhar, não precisava nem saber nadar. Só precisava estar ali, isso, por si só, inundava a alma de felicidade. Depois, sorri. Como quem sugere às ondas do Paranoá que levem para longe as mágoas ou ao rapaz do outro lado da mesa que esqueça tudo de ruim. Que comecem de novo, os dois. Será que é possível recomeçar?

O garçom se aproxima, com água, café e adoçante. Dispõe, com cuidado, as bebidas sobre a mesa.

Alfredo aguarda a resposta.

– E então? – questiona, receoso.

Ela se entrega a outro sorriso. Quer dizer tudo que sente. Mas se contém. Tem medo. Mesmo assim, arrisca:

– Sugiro um café – diz, fitando-o com determinação.

Alfredo devolve o sorriso. Ele compreende, os dois merecem nova chance. Já passa da hora de tentar.

Foto: Ana Júlia Melo

Foto: Ana Júlia Melo

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