Um shopping popular

Ao lado da rodoviária do Plano Piloto, um enorme bloco de concreto, revestido externamente por diversos anúncios publicitários, recebe brasilienses de todo gênero e classe social. O edifício é o Conjunto Nacional, primeiro shopping center de Brasília – e segundo do país – e patrimônio da cidade tombado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

Cerca de 80 mil pessoas pisam as lajotas acinzentadas do centro comercial, diariamente. Fiel aos blocos e pilotis do projeto urbanístico de Lucio Costa, ele é aberto para a rua, sem cercas ou grades, o que o diferencia estruturalmente de outros shoppings. Os clientes são, em grande parte, gente que, de segunda a sábado, precisa pegar ônibus no terminal para se locomover. No tempo livre, aproveitam para dar uma passada rápida por ali.

São 320 lojas dispersas em três pavimentos e divididas entre duas alas – a Sul e a Norte. O prédio já faz parte da rotina da capital há 41 anos. De acordo com a assessora de marketing do estabelecimento, Karina Borges, o plano inicial era transformar o espaço em uma galeria apenas, pois o setor de shoppings centers ainda era embrionário no Brasil. Contudo, tendo em vista a extensa área disponível, a equipe decidiu investir em ideias pioneiras e inaugurou, em três etapas (nos anos de 1971, 1974 e 1977, respectivamente), uma grande zona de comércio, próxima à Esplanada dos Ministérios. Para Karina, a localização e o fato de não ser fechado fazem do Conjunto um shopping democrático. “Não intimida as pessoas”, explica.

Riad Nehme, um libanês de 76 anos, estatura mediana, cabelos brancos e andar calmo, é dono de restaurantes e lanchonetes no local há quatro décadas. Ele relata que, no dia de abertura do shopping, o sucesso de vendas entre a população foi tamanho que, por volta das 11h, inúmeras lojas já haviam esgotado o estoque. Riad também possui estabelecimentos em outros pontos da cidade – ao longo de meio século, já contabilizou cerca de 120 empreendimentos comerciais em Brasília –, mas, durante grande parte do dia, pode ser visto na praça de alimentação do Conjunto Nacional, caminhando por entre mesas e cadeiras, a observar o movimento de pessoas e a controlar o desempenho de funcionários.

Ele trabalha 14 horas diariamente. Às 6h, já está em pé, pronto para levar as mercadorias da sede no Conjunto, onde são feitos os pratos e quitutes, às demais lojas espalhadas pela cidade. Duas horas mais tarde, toma café da manhã e realiza caminhada diária durante 40 minutos. Em seguida, volta ao shopping e lá permanece até às 20h. Confessa que, apesar de estar em Brasília desde a época da inauguração, já não conhece mais a capital, pois o trabalho lhe consome todo o tempo. Morou no Núcleo Bandeirante e em Taguatinga e, hoje, vive na Asa Sul. Criou filhos e netos no planalto central e garante que não tem vontade alguma de ir embora. Nem de Brasília, nem do shopping. “Daqui vou direto para o Campo da Esperança¹”, comenta, rindo.

O supervisor de segurança, L.S.², relata que as lojas começam a funcionar às 7h, mais cedo do que em outros estabelecimentos do gênero, que costumam abrir entre 9h e 10h. O horário de fechamento gira em torno das 22h30. Como não há barreiras de proteção ao longo do edifício, os guardas precisam manter-se em constante alerta. Circulam por todos os andares em vigia à possíveis ameaças. Na praça de alimentação, não raro, param para avisar clientes que conservem as bolsas ou pertences junto ao corpo, para evitar furtos. Mas, segundo o supervisor, considerando-se a grande circulação de pessoas, em especial em dias úteis, a equipe de segurança consegue manter o número de crimes registrados em lojas e na área de alimentação sob controle.

O funcionário de uma antiga loja de instrumentos e aparelhos de som localizada na Ala Sul do shopping, Rogério Martins Teixeira, de 35 anos, conta que, apesar da inexistência de grades, o ambiente é tranquilo. Em dezesseis anos de trabalho no local, ele presenciou somente episódios em que a equipe de vendedores suspeitou de tentativas de furto de mercadorias. O que viu de mais marcante ao longo desse tempo foi um botijão de gás estourar, gerando pânico em uma multidão de clientes. Na ocasião, Rogério, assustado, tratou logo de correr para o depósito da loja. Por sorte, não era nada grave e ninguém se feriu.

O atendente mora em Brazlândia³ com a esposa e as duas filhas. Levanta às 6h30 e vai à padaria comprar pão para as crianças tomarem café. Depois, aproveita para dormir mais um pouquinho. O ônibus para o serviço só sai às 8h30. Em uma hora, ele chega ao Conjunto e, na companhia dos colegas, organiza os produtos para, às 10h, abrir a loja. Ao meio-dia, almoça ali mesmo. Às vezes, leva comida pronta de casa, outras, vai a restaurantes. Permanece no estabelecimento até às 18h, quando vai embora para assistir programas infantis na televisão com as filhas ou noticiário na companhia da mulher.

Ele gosta de trabalhar com música e seu gênero preferido é o sertanejo, em especial, o de raiz. Mas admite que o mercado de shoppings centers é esgotante para os funcionários. A carga horária é elevada e nem todos os clientes são gentis e compreensivos, conforme observa. No começo de 2013, saiu do Conjunto e foi trabalhar em um escritório. Mas não tardou a voltar. Prefere o emprego de vendedor de CDs. Além disso, aprecia as facilidades proporcionadas pelo lugar. “O shopping é de fácil acesso para o pessoal do Entorno, tem transporte público do lado”, explica.

O sociólogo Rodolfo Teixeira, professor da Universidade de Brasília (UnB), esclarece que a falta de grades não está, necessariamente, relacionada de maneira direta com os conceitos de igualdade e democracia. Para o estudioso, o Conic, ou Setor de Diversões Sul – centro de comércio e entretenimento que fica na mesma altura do Conjunto, porém no sentido sul da cidade –, é bem mais popular e, aparentemente, democrático. “Ele é aberto, também não possuí grades, tem apenas estacionamento público e permite a vista do céu”, expõe Rodolfo, em alusão ao fato de o Conjunto Nacional possuir também estacionamento privativo. “Além disso, (o Conic) fica aberto até bem mais tarde, inclusive com uma vida boêmia bastante agitada – para ser suave – do ponto de vista antropológico”, completa.

Uma coisa, porém, é certa: o shopping consolidou-se como símbolo de Brasília. Exemplo disso, é a canção Anúncio de Refrigerante, da banda brasiliense Aborto Elétrico – ativa entre o fim da década de 1970 e o começo da década de 1980. A letra da música faz menção ao shopping como símbolo do local ao relatar hábitos da juventude candanga, como o de despender horas de ócio no Conjunto Nacional. Em 2005, a música foi gravada pelo grupo Capital Inicial, também originário da cidade. Até hoje, jovens e adultos ainda passam as tardes por lá, tendo ou não tendo o que fazer.

Foto: Beatriz Vilela

Foto: Beatriz Vilela


¹ Principal e mais central cemitério de Brasília, localizado na extremidade da Asa Sul.

² Por motivos de segurança, a fonte preferiu não se identificar.

³ É a Região Administrativa de número 4 do Distrito Federal, distante 50 quilômetros do Plano Piloto. Possui cerca de 80 mil habitantes. A cidade é conhecida por festas tradicionais como a do Morango e do Divino.

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